Do Duelo de Guitarras à Revolução da New Wave: A Evolução do Rock Britânico

Quando falamos sobre a arquitetura do rock and roll, é impossível ignorar o impacto sísmico de Jeff Beck e Jimmy Page. Sem essa dupla, a sonoridade que definiu as carreiras de Eddie Van Halen, David Gilmour, Brian May, Slash e até Kurt Cobain seria irreconhecível. A influência deles transcende o gênero, moldando o próprio instrumento de maneiras que ainda hoje reverberam na indústria. Embora tenham trilhado caminhos distintos que culminaram em lendas separadas, a relação entre esses dois ícones começou cedo, no início dos anos 1960, apresentados pela irmã de Beck. Essa afinidade profunda perdurou por décadas, ilustrada de forma tocante quando Page introduziu Beck ao Hall da Fama do Rock and Roll em 2009, muito antes do falecimento deste último em 2023.

A Tensão Criativa nos Yardbirds

Antes de se tornarem titãs de carreiras solo ou líderes de supergrupos, houve um breve e explosivo momento em que ambos dividiram o mesmo palco na icônica banda The Yardbirds — grupo que também revelou Eric Clapton ao mundo. Com a saída de Clapton, a formação da banda tornou-se volátil, permitindo que Page e Beck tocassem juntos por alguns meses. O que poderia ter sido uma parceria harmoniosa, no entanto, transformou-se rapidamente em um caldeirão de competitividade.

O baterista Jim McCarty, na biografia do Led Zeppelin, descreveu a dinâmica como “fascinante de assistir, mas pouco saudável”. A tensão era palpável. Chris Deja, o baixista, observou que, embora Page não subisse ao palco com a intenção de ofuscar ninguém, a reação de Beck transformava as apresentações em uma disputa de ego, algo como “vamos ver quem pode mais”. Dizem que ferro afia ferro, mas uma banda de rock talvez não seja o ambiente ideal para esse tipo de atrito constante. Em 1966, Beck foi demitido, admitindo mais tarde que, no fim, eles estavam apenas em lados opostos do palco, trocando olhares furiosos e tentando superar um ao outro sonoramente a noite toda.

A Virada para a Composição: A Chegada da New Wave

Enquanto a poeira baixava sobre os excessos instrumentais dos anos 60 e o início dos 70, o cenário britânico preparava uma nova revolução. Se você não estava tocando heavy metal ou rock progressivo no final da década de 1970, provavelmente acabava rotulado sob a etiqueta da “New Wave”. Muitos desses artistas, oriundos do Reino Unido e por vezes confundidos com o movimento punk, emergiram não apenas como intérpretes, mas como letristas sofisticados que deixariam para trás os rótulos iniciais para se tornarem artesãos respeitados da canção.

Entre esses talentos, Elvis Costello surgiu como um furacão com seu álbum de estreia, My Aim Is True, em 1977. Longe de sorrir para as câmeras, Costello personificava o “jovem irritado” da New Wave. Contudo, ao recrutar os Attractions como banda de apoio, ele elevou a intensidade e o ritmo de sua música. Críticos que viam nele uma abordagem unidimensional foram surpreendidos por uma eloquência e nuance que provaram, com o tempo, fazer dele um dos compositores mais versáteis da história.

De Líderes de Banda a Ícones Solo

Outro gigante que redefiniu sua trajetória foi Sting. Ao ingressar no The Police, a liderança natural parecia pertencer ao baterista Stewart Copeland. No entanto, a habilidade de composição de Sting rapidamente o colocou à frente, criando um desequilíbrio que, embora tenha acelerado o fim do grupo, produziu obras-primas. A evolução de faixas diretas como “Roxanne” para a complexidade textural do álbum Synchronicity foi notável, pavimentando o caminho para uma carreira solo multifacetada.

Paralelamente, Nick Lowe já era um veterano da cena “pub rock” com o Brinsley Schwarz antes de se tornar um farol da New Wave. Suas primeiras canções solo, ácidas e irreverentes como “I Love The Sound Of Breaking Glass”, pareciam alinhar-se perfeitamente com a estética da época. Mas Lowe tinha cartas na manga, eventualmente assentando-se confortavelmente como um compositor de raízes musicais profundas e inteligência natural.

Por fim, Joe Jackson ilustra perfeitamente essa capacidade de reinvenção britânica. Inicialmente visto como um clone de Elvis Costello devido a faixas mordazes como “Is She Really Going Out With Him”, Jackson livrou-se das amarras da New Wave mais cedo que seus pares. Com o sucesso do álbum Night And Day em 1982, ele adotou uma abordagem jazzística, esculpindo um nicho impressionante e sofisticado no cenário pop, provando que a música britânica continuava a evoluir muito além dos duelos de guitarra da década anterior.

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