Entre o Esterco Musical e o Caos Autêntico: O Que Estamos Consumindo?

O verão brasileiro já tem sua trilha sonora e, para desespero de alguns, ela gruda na cabeça com a força de um chiclete pisado. É impossível rolar o feed de qualquer rede social por cinco minutos sem trombar com os versos “Os bombonzin tão bronzeando pra eu chegar e morder / Nóis vai descer, vai descer / Descer lá pra BC no finalzin do ano”. O hit de Brenno & Matheus não só virou o hino não-oficial de Balneário Camboriú, como tomou de assalto a internet. A faixa virou pano de fundo para todo tipo de vídeo de humor, servindo de trilha até para montagens onde o lendário Silvio Santos desce até o chão na boca de uma garrafa no SBT.

No YouTube, a dupla sertaneja paranaense nada de braçada. Os clipes da música já somam perto de 30 milhões de visualizações e arrastam uma legião de mais de 15 mil comentários. Mas se os números gritam sucesso absoluto, tem quem olhe para o topo das paradas e enxergue apenas o fundo do poço.

Regis Tadeu, o temido crítico musical que construiu sua fama distribuindo patadas no programa Raul Gil e dissecando a cultura pop com acidez, não deixou a febre passar batida. Depois de receber o que chamou de “centenas de pedidos” para analisar o fenômeno, o diagnóstico foi implacável. Para Regis, escutar a faixa foi ver uma parte da sua vida sendo sumariamente jogada no lixo, cravando sem dó que essa é, provavelmente, a pior porcaria que a história da música brasileira já produziu.

Ele não poupa a letra, metralhando as gírias, a concordância verbal inexistente e os vícios de linguagem que formam o que ele apelidou de verdadeira “carnificina linguística”. Na visão do crítico, todo esse vocabulário de agroboy não passa de uma tática barata para criar uma aura de ostentação descolada. Uma malandragem sedutora de plástico que só expõe a caricatura de uma geração que perdeu qualquer noção de autenticidade.

O buraco, segundo a análise, é bem mais embaixo. A própria interpretação da dupla faz, nas palavras dele, “Ludmilla soar como Aretha Franklin”. É o retrato de uma indústria musical viciada em produzir um vácuo de conteúdo, desenhado milimetricamente por algoritmos para hackear o topo do Spotify. O sucesso da faixa só se sustenta porque o público já foi adestrado a consumir lixo descartável no modo automático, revelando uma juventude perigosamente desconectada de qualquer raiz cultural. É uma bomba musical que reflete um país que, culturalmente, soa estúpido, ignorante e infantilizado.

Enquanto o Brasil consome essa carnificina linguística sem querer, lá fora a barbárie é outra — mas essa, pelo menos, é totalmente intencional. Longe do topo do Spotify e mergulhado na teatralidade visceral, o shock rock do GWAR continua provando que o grotesco tem seu valor quando assumido de frente. A lendária trupe de metal alienígena está prestes a transformar a América do Norte em um verdadeiro matadouro sonoro.

Eles começam os trabalhos em setembro, coroando suas passagens pelos festivais Louder Than Life em Louisville (dia 17) e Riot Fest em Chicago (dia 18) com uma mini turnê insana. Para engrossar o caldo nesse aquecimento, os caras trazem a tiracolo a fumaça pesada do stoner metal do Weedeater e a pancadaria powerviolence do Brat, direto de Nova Orleans. A trinca destrutiva desce o martelo pelo meio-oeste e sul, sacudindo Davenport no Capitol Theatre (19), Grand Rapids (20), Memphis (22) e fechando essa primeira perna em Baton Rouge no Chelsea’s Live no dia 23.

Mas o verdadeiro teste de sobrevivência para os fãs começa no fim de outubro, quando o GWAR engata a turnê principal. É um rolê massivo que cruza os Estados Unidos de ponta a ponta, trazendo o Midnight e o Mac Sabbath como companhias fixas de turnê, além de reforços de peso como X-Cops e Atomic Rule batendo ponto em datas selecionadas.

A rota de aniquilação não deixa pedra sobre pedra. O aquecimento rola pelo sudeste, passando por Charlottesville, Atlanta e Jacksonville no final de outubro, antes da banda embarcar no The Headbangers Boat, um cruzeiro insano saindo de Miami que vai até o dia 3 de novembro. De volta à terra firme, a caravana varre a Flórida em Fort Lauderdale e Orlando, sobe a costa por Myrtle Beach e Winston-Salem, e corta o país passando por Nashville, Little Rock e Dallas.

Na segunda quinzena de novembro, a turnê rasga o oeste americano sem freio. O massacre tem paradas agendadas em Denver, Salt Lake City e Las Vegas, antes de descer com tudo na Califórnia para noites pesadíssimas em Anaheim, Berkeley e Chico. O roteiro ainda cruza o extremo norte, castigando Bend, Seattle e Spokane, e ignora fronteiras para triturar o Canadá com shows em Vancouver, Edmonton, Calgary e Winnipeg até o dia 30.

Quando dezembro chegar, o caos de encerramento já tem CEP garantido. A banda passa por Lincoln, Milwaukee, Pontiac e Cleveland, empurrando a turnê para a reta final na costa leste. O apocalipse de fim de ano passa por McKees Rocks, Washington D.C., Worcester, e promete uma catarse absoluta em plena Times Square, em Nova York, no dia 10. A turnê finalmente dá seu último suspiro passando pela Filadélfia no dia 11, antes do grand finale no The NorVa, em Norfolk, no dia 12. Se a música pop aposta na ostentação vazia, o underground segue garantindo que o barulho de verdade continue batendo de frente.

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