A indústria do entretenimento sul-coreano vive um momento de contrastes fortíssimos. Por um lado, as gigantes do setor articulam uma expansão internacional agressiva e sem precedentes. Por outro, a dinâmica interna continua a esmagar carreiras sob o peso das expectativas irreais sobre a vida pessoal dos artistas. Essas duas realidades colidiram recentemente, evidenciadas pelo anúncio de um megaprojeto envolvendo as principais agências do país e, nos mesmos dias, pelo turbulento afastamento de um jovem cantor devido à pressão esmagadora de seus próprios fãs.
A aliança das gigantes para um megafestival
Pensando grande, as quatro maiores empresas de K-pop da Coreia do Sul decidiram dar as mãos. Hybe, YG Entertainment, SM Entertainment e JYP Entertainment estão atualmente estruturando uma joint venture. A meta dessa iniciativa conjunta é lançar um festival de música global capaz de bater de frente com eventos do tamanho do Coachella, nos Estados Unidos.
Park Jin-young, fundador da JYP e copresidente do Comitê Presidencial para Intercâmbio de Cultura Popular, apresentou a iniciativa em outubro durante a cerimônia de inauguração do comitê na cidade de Goyang, a noroeste de Seul. As quatro empresas compõem a divisão de música desse órgão e batizaram o projeto de “Fanomenon”, uma brincadeira unindo as palavras “fã” e “fenômeno”. A ideia é viabilizar o grande evento até dezembro de 2027. Os executivos das agências afirmam que o modelo de colaboração visa explorar novas frentes para a expansão da cultura coreana no mundo, embora garantam que os planos de negócios definitivos só serão fechados após análises muito cuidadosas das condições do mercado e de diversas opiniões do setor.
A cultura da perfeição e a queda de um ídolo
Enquanto a SM Entertainment trabalha na linha de frente desse ambicioso festival, a empresa lida nos bastidores com a dura rotina de gerenciar ídolos. No universo da música pop coreana, os artistas não podem se envolver em atitudes que desagradem o público. A exigência é por uma imagem impecável, quase sobre-humana. O caso de Seunghan, ex-integrante do grupo RIIZE, expôs mais uma vez o poder de destruição dessa lógica.
O jovem acabou perdendo seu lugar no grupo após o vazamento de uma foto pessoal. Na imagem, ele aparecia fumando um cigarro na cama ao lado da namorada. Para boa parte da comunidade que acompanha a banda, a atitude manchava a reputação do projeto. A situação do artista já era bem frágil, considerando que ele havia passado por uma suspensão de dez meses, afastado das atividades por conta de outras polêmicas, o que forçou o RIIZE a operar como um sexteto desde novembro do ano passado.
Revolta, coroas de flores e recuo da agência
A equipe da SM Entertainment responsável pela banda, a Wizard Production, tentou contornar o estrago. Numa sexta-feira, dia 11 de outubro, a agência anunciou o retorno oficial de Seunghan. A direção acreditava que a volta do membro traria um novo fôlego ao grupo e agradaria os admiradores. O tiro saiu pela culatra. A reação da base de fãs, os chamados Briize, foi imediata e agressiva. Protestos tomaram forma, e dezenas de coroas de flores fúnebres foram enviadas para a sede da SM em Seul, carregando mensagens como “Riize is Forever Six” (Riize é para sempre seis).
A pressão surtiu efeito rápido. Apenas dois dias depois do anúncio do retorno, em 13 de outubro, o próprio Seunghan veio a público comunicar sua saída definitiva da banda, alegando que tomava a atitude em respeito aos colegas e ao público.
O pedido de desculpas e a guerra nas redes
A crise fez com que os diretores da Wizard Production, Kim Hyeong-guk e Lee Sang-min, publicassem uma carta aberta. Assumindo a responsabilidade pela confusão, eles pediram desculpas sinceras e admitiram que não souberam priorizar o crescimento dos seis integrantes que seguraram as pontas durante a ausência do colega. Os executivos respeitaram a decisão do garoto de sair e garantiram que vão apoiá-lo em sua jornada e sonhos fora do escopo do RIIZE.
O desfecho, no entanto, passou longe de apaziguar os ânimos. Uma outra parcela significativa dos fãs interpretou a expulsão do cantor como uma medida covarde e extrema por parte da gravadora. Indignados com o poder da ala mais radical do fã-clube, esses apoiadores organizaram um abaixo-assinado exigindo a reintegração de Seunghan. O documento já passou das 230 mil assinaturas. Agora, toda a comunidade acompanha os próximos passos, esperando para ver se a SM vai reconsiderar sua posição ou manter a decisão irrevogável.